13 de fevereiro de 2014
Banda Redonda, a mais antiga do Carnaval paulistano, comemora 40 anos
A mais antiga banda de rua do Carnaval de São Paulo, a Redonda, fundada e animada por artistas e jornalistas no auge da repressão militar, vai abrir a semana carnavalesca na segunda, 24 de fevereiro. Como de costume, sem temas ou fantasias, mas com dois bons motivos pra embalar a festa. Quatro décadas de folia e 80 anos do líder do grupo, Carlos Costa, mais conhecido como Carlão, ‘o general da banda’.
Pra celebrar o aniversário duplo, Carlão pretende levar de volta às ruas parte da turma que saiu em 1972, na primeira banda, chamada Bandalha, criada por ele em parceria com o escritor e dramaturgo Plínio Marcos. Dois anos depois que ela parou, por problemas com a prefeitura da época, deu lugar a Redonda, em 1974. “Quero trazer todo aquele pessoal das antigas, atores, atrizes, jornalistas”.
Da velha guarda, entre os nomes confirmados, estão os dramaturgos Oswaldo Mendes e Chico de Assis, e o diretor e professor de teatro, Emílio Fontana. Plínio Marcos será representado pelos filhos Kiko e Aninha Barros.
A banda esse ano vai distribuir homenagens. Na lista dos que receberão o troféu da Redonda, estão o ator Raymundo de Souza (“O Cravo e a Rosa”, Globo), atualmente no elenco da minissérie “Milagres de Jesus” (Record) e a atriz Nicole Puzzi (“Barriga de Aluguel”, Globo).
O Sindicato dos jornalistas recebe homenagem, representado pelos jornalistas Audálio Dantas, que esteve à frente da entidade em 1975, e o atual presidente, José Augusto Camargo. Levam troféu também o vice-presidente da SPTuris (empresa municipal de turismo e eventos), Ítalo Cardoso, e o músico e compositor Luiz Wagner.
À frente da folia, os interpretes Aldo Bueno, Douglas Franco e Germano Mathias, entre outros, conduzirão a festa com marchinhas tradicionais e sambas de Carnaval. “O time é acompanhado pela banda musical do Fumaça, com mais de 30 integrantes”, acrescenta Carlão. E como ocorre todos os anos, a festa da Redonda terá na concentração a participação da corte do samba paulistano, com o Rei Momo, a rainha e as princesas.
“Milicos não queriam que ninguém saísse às ruas”
Carlão é mais do que o cara por trás do animado bando, que bancou o risco de ir pra rua brincar em plena época de ditadura militar. “Milicos não queriam que ninguém saísse às ruas, para nenhum tipo de manifestação”, relembra. O ‘general’ oitentão é também uma das maiores autoridades em Carnaval, e uma prova viva de que há tempos São Paulo tem samba e Carnaval da melhor qualidade.
Ele comenta que as bandas Bandalha (gíria santista da época, que significa pessoa desarrumada) e Redonda surgiram em resposta às galhofas que Plínio Marcos enfrentava no Rio, na época em que atuava na novela “Bandeira 2”, da Globo.
De acordo com Carlão, o grupo de intelectuais do Rio que criou a badalada Banda de Ipanema, entre eles o jornalista Sergio Cabral (pai do governador carioca), o cartunista Ziraldo, o poeta Ferreira Gullar, e os atores Milton Gonçalves e Nelson Xavier, zoavam diariamente Plínio Marcos, amparados pelo poeta Vinicius de Moraes, que disse certa vez que “São Paulo era o túmulo do samba”.
Apesar da rixa, e das piadas, ele tece elogios aos colegas cariocas. “A banda de Ipanema é a melhor banda de Carnaval do Brasil”, diz. “Mas a segunda é a Redonda”, garante Carlão. “E são eles que dizem isso”, completa o general carnavalesco.
Em 1972, a banda carioca aproveitou a folia para protestar contra a repressão militar. “Com Leila Diniz e Odete Lara como porta-estandartes paravam a bateria e gritavam: “viva o povo, abaixo a ditadura”.
Em São Paulo, no mesmo ano, o primeiro desfile da Bandalha, segundo Carlão, reuniu aproximadamente 2 mil pessoas. “Paramos a Consolação”, orgulha-se o carnavalesco. “Tivemos como porta-estandarte, a atriz Etty Frazer, e o mestre-sala foi o ator Toni Ramos”, recorda Carlão.
O bando de Plínio Marcos
Para sair no bloco
Quando: Dia 24 de fevereiro de 2014, Segunda-feira
Horário: Concentração às 19h – Entrega dos Troféus às 20h – Saída: 21h
Onde: Concentração em frente ao Teatro de Arena Eugênio Kusnet – Rua Teodoro Baima, 94 – Consolação.
Trajeto: Ruas Theodoro Baima, Consolação, Xavier de Toledo, Teatro Municipal, Rua Cons. Crispiniano, Largo do Paissandu, Av. São João, Av. Ipiranga, Praça da República, cruza a Av. São Luís, regressando ao Teatro de Arena, encerrando o desfile com músicas do verdadeiro carnaval de rua.
Quem vai: artistas, jornalistas e público diverso
Fantasias: livre para todos os foliões (apenas Carlão vai com o figurino de General da Banda)
Um dos fundadores da banda Redonda, o diretor Emílio Fontana, que promete se chacoalhar mais uma vez no Carnaval deste ano, conta que o grande animador do bando sempre foi Plínio Marcos. O diretor diz que se encontrava quase diariamente com o dramaturgo.
“Dirigi ele [Plínio] no show ‘Nas quebradas do Mundaréu’ que reuniu a nata do samba paulistano, Geraldo Filme, Zeca da Casa Verde, entre outros”, diz. O espetáculo virou um disco lançado em 1974 pela gravadora Continental, relançado pela Warner em 2012.
Um dos autores mais proibidos do país durante os anos de censura, Plínio Marcos foi carimbado como dramaturgo maldito por seu texto invariavelmente ácido, lembra Fontana. Em geral, sua voz se erguia em defesa das classes populares.
Para Fontana, o dramaturgo foi um ‘guerrilheiro da dramaturgia’, mas também do jornalismo. Ele atuou um período como cronista de jornal (no “Ultima Hora”, do jornalista Samuel Wainer). O diretor destaca um texto em que Plínio Marcos se define como ‘repórter do povão lesado’. “Eu conto história das quebradas do mundaréu, lá de onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos. Falo da gente que sempre pega a pior, que come da banda podre, que mora na beira do rio e quase se afoga toda vez que chove; e que só berra da geral sem nunca influir no resultado”.
Esse espirito libertário e popular até hoje dá o tom e o norte para os foliões da Redonda, ressalta Fontana. “Plínio Marcos, estava certo, aqui na nossa banda todos se tornam iguais, nesse asfalto os seus personagens marginais ganham vida há 40 anos”.
Ele se refere principalmente às prostitutas, que Plínio sempre retratou nas peças teatrais e que fazia questão de convidar para a folia – e que até hoje participam da festa. Foi também por sugestão do dramaturgo maldito que o grupo começou a se reunir em frente ao Teatro de Arena (teatro que Fontana ajudou a criar na década de 1950, hoje renomeado como Teatro de Arena Eugênio Kusnet).
“A ‘birita’ a gente pegava no Redondo”, detalha. Redondo era um bar frequentado na época por artistas e jornalistas. “Hoje virou uma casa de esfihas”, lamenta o diretor.
Diferentemente do que pode parecer, não foi o saudoso bar que inspirou o nome da banda. “Até pensamos nisso, mas o Plínio não topou”, conta Carlão. “Ele reclamava que o ‘portuga’ (o dono do extinto estabelecimento) era um tremendo muquirana, que sequer colaborava com uma cerveja vez ou outra”.
O carnavalesco revela que o nome surgiu na verdade de uma gíria usada entre estudantes da USP: “testa redonda”, para os mais inteligentes, e “testa quadrada”, para aqueles de raciocínio mais lento. “Como éramos todos espertos, ficou banda Redonda”, conclui Carlão.
Concentração
Desde 1972, ainda como banda Bandalha, até hoje, todos os anos a trupe da Redonda se concentra em frente ao Teatro de Arena e depois percorre o centro. Na realidade, ‘quase todos os anos’. O general da banda conta que em 1978, a folia foi forçada a se calar. “Erasmo Dias [então secretário de Segurança Pública] não queria baderna nas ruas”, diz Carlão.
Fora esse hiato, a folia segue a mesma ao longo das quatro décadas. Outro detalhe que nunca mudou é o dia da banda sair, sempre às segundas-feiras, abrindo a semana do Carnaval. “Foi por causa da agenda de artistas e jornalistas, é o dia mais ocioso, além disso, no Carnaval muitos não ficam na cidade”, justifica o sambista.
Fantasia fica ao gosto do folião. Apenas ele, Carlão, todos os anos, se veste com o tradicional figurino de general da banda. “Foliões são livres para irem como quiserem”, diz.
A banda Redonda espera receber esse ano um público em torno de 20 mil pessoas. Segundo Carlão, a média de participantes dos últimos três anos.
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